Fui trabalhar de manhã, bem cedinho, apesar da ressaca da festa por meu time ter ganhado na noite anterior.
No ônibus o famoso e inevitável segundo tempo dançava ruidosamente entre os passageiros sobre a espetacular vitória tricolor. A alegre flauta de uns, a triste troca de¨receitas de bolo¨ de outros.
A certa altura das gozações um passageiro até então desconhecido, mas na ocasião aliado dos vitoriosos comentou que após o primeiro gol do adversário (a vitória foi de virada), o seu vizinho da frente de sua casa, e torcedor colorado doente, cujo time não estava jogando, estava numa secação extremada. Explico: O danado pendurou um boneco numa forca, vestido com a camiseta do Grêmio, na soleira da porta e junto com outros amigos acampou em algumas cadeiras na frente da casa e ficaram escutando o jogo num radinho e tomando cerveja.
Quando houve o gol do empate, o que contava a estória foi verificar e percebeu que já não havia ninguém na frente da casa, mas o boneco permanecia ali, enforcado à porta. No momento do gol da virada (e da vitória) e já no finalzinho do segundo tempo, novamente o tricolor foi dar uma olhadela para conferir a cena e então ficou estupefato quando se deparou com a fachada da casa completamente limpa, sem boneco e sem torcedores. Por que será, heim?
Contei esta estória num bar, como se tivesse acontecido comigo e meu vizinho, só para ver a reação de um conhecido grupo de colorados que estavam na mesa ao lado e capitalizar as óbvias gargalhadas da flauta.
No outro dia no mesmo bar um amigo que havia escutado a minha interessante meia verdade revelou que em outra ocasião havia usado a minha estória como se tivesse acontecido com ele, só para alegrar os amigos e gozar os adversários e também por ser uma boa lorota, como todos acharam. Mas o mais interessante é que ele achou a maior graça quando falei que também havia mentido sobre a autoria. Então concluímos que duas meia-verdades resultava numa verdade inteira e ainda sobrava uma boa mentira.
Nos jogos seguintes vários casos de bonecos enforcados em frente de casas de adversários foram relatados por outros amigos. Era o sinal que precisávamos para ficar tranqüilos, as próximas estórias seriam verdadeiras.
Novembro de 1998
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