11 de out. de 2008

Toca Fogo!!!

Altas horas da noite, a garrafa de pinga corria de mão em mão para celebrar a aliança de apoio a Lula na eleição presidencial de 1988. Entre palavras de ordem e discursos eufóricos, os militantes dos PT e nós do PDT chacoalhávamos no velho ônibus de campanha na avenida principal de Viamão. A tarefa era a pichação das paradas de ônibus em toda a extensão da RS 040, agora Rodovia Tapir Rocha, com a propaganda do Lula como candidato a presidente. Um osso duro de roer, diga-se de passagem, o Brizola recentemente havia sido derrotado no primeiro turno, aliás todas as pesquisas apontavam que ele ganharia do Collor no segundo, mas lá estávamos nós, no segundo, com o sapo barbudo do PT, conforme definira o próprio tio Briza. Por um lado, a frustração, pelo outro a firme determinação de fazer o possível e o impossível para que o Collor não fosse eleito. Formávamos um grupo de doze, pois éramos entre oito e os petistas em número de quatro. Estes, pragmáticos como sempre, propuseram que primeiro déssemos o fundo branco em todos os abrigos, no sentido bairro-centro e depois retornássemos para, já com a cal seca, pichar as palavras de ordem previamente escolhidas. Como ninguém se opôs, tocamos o barco, ou melhor, o velho ônibus, branqueando abrigo por abrigo até o centro do município. Quando lá chegamos, fomos interceptados por um velho chevete tubarão buzinando insistentemente. Paramos na mesma hora e, então, do carro desceu um conhecido companheiro que nos abordou muito agitado:
-¨Os cabos eleitorais do Collor estão pichando as paradas que vocês estão caiando!¨, disse, esbaforido, o companheiro mariano.
-Não pode ser. Tem certeza? Perguntou o Leonel incrédulo.
-Claro que sim, passei por eles na frente do clube Cantegril e vi tudo! Confirmou o companheiro Mariano, gesticulando indignado.
Era demais que eles tivessem a cara-de-pau de pegar carona no nosso trabalho, não tanto pelo oportunismo, mas pelo fato de que eles deveriam estar rindo da nossa cara pela sacanagem. Ficamos tão irritados com a notícia que se não fosse o bom senso do companheiro Leonel poderia ter acontecido um massacre. Decidimos, então, de que o Leonel acumularia as funções de motorista e representante do grupo, quando encontrássemos os nossos desafetos, pois os outros estavam totalmente descontrolados e só falavam em ¨dar pau¨, ¨quebrar a cara¨e outra série de ameaças talvez do mesmo nível, mas nem tão importante que se possa mencionar, (ninguém tinha um mísero canivete no bolso). Passado o furor, damos inicio a empreitada: localizar os malditos "espertos".
Passando o Colégio Isabel de Espanha avistamos um fuquinha ao lado do abrigo da parada 33. Mais um pouco e já dava para ver a dupla de abusados com a mão na massa, ou melhor nas trinchas. Pegamos na tampinha! O flagrante estava dado. Agora dependíamos dos argumentos do ¨embaixador¨, apesar da indignação de todos. Paramos o ônibus um pouco à frente do local e descemos cheios de razão. O líder Leonel à frente, impávido, exigindo explicações, com o dedo em riste. Cercamos os dois gaiatos e quando iniciaram a chorumela, o Edinho, podre de bêbado, que havia se afastado sorrateiramente aproximou-se do grupo e num bote acomodou um porrete no lombo de um deles. Um grito na madrugada. Os dois saíram em desabalada carreira, em direção ao fuquinha e nós atrás, mas quando chegamos perto do carro olhei pelo pára-brisa traseiro e com meus “olhos de lince¨ vi um tremendo facão três-listras tão novinho que relampeava entre os bancos da frente. Nem pensei duas vezes, para evitar que alguém se machucasse num possível revide e na esperança de que os gaiatos concluíssem sua fuga, soltei um estrondoso grito bem no meio da confusão: ¨TOCA FOGO! TOCA FOGO!¨. Este ardil era simplesmente para que os dois sujeitos pensassem que tínhamos uma arma e realmente fugissem do local. Porém, esqueci de avisar os meus companheiros. Quando terminei de berrar, senti uma trombada frontal que me atirou uns dois metros para trás, me fazendo despencar num barranco. Até pensei ter levado um tiro de doze, mas era o companheiro Natalino que me deu um peitaço, fugindo. Quando fui levantar senti uma mão me agarrar e me arrastar para trás de umas pedras. Não entendia porque os nossos estavam correndo desesperadamente em todas as direções e, então, perguntei ao Natalino, que ofegante respondeu:
-Ué, tu não ouviu eles gritarem ¨toca fogo¨?
-Mas fui eu que gritei, companheiro! Afirmei.
-Não foi não, foram eles! Reafirmou, cochichando, o companheiro Elias que rastejava atrás de um muro.
Naquela altura do campeonato nem procurei insistir. Achei que seria linchado. Ainda acho. Fiquei ali anestesiado de tanta vontade de rir, mas não podia cometer este erro, levaria uma sova de todos. Passou-se alguns segundos que pareciam uma eternidade e o denso silêncio que envolvia a cena foi rompido pelos ruidosos arranques dos dois carros que não queriam pegar, era nhô nhô nhô nhô nhô de um lado e nhé nhé nhé nhé nhé do outro, acho que por nervosismo dos motoristas, nem o ônibus nem o fuca conseguiam pegar. O pânico era geral. Os petistas já tinham invadido um pátio cheio de cachorros e gritavam sem parar. De onde estávamos dava para escutar nitidamente o Edinho suplicar dentro do ônibus:
-¨pelo amor de Deus, Leonel, faz pegar esta merda senão eles vão dar tiro na gente!¨
Passaram-se alguns minutos e, finalmente, os motores roncaram. A fuga parecia cena de cinema pastelão. Corriam um do outro, lado a lado, até o próximo retorno, que era perto e voltaram pelo outro lado da faixa. Os do Collor reboleavam o facão no ar e esbravejavam, os nossos aceleravam e empurravam o fuca com a lateral do ônibus. Quando passavam ao ponto em que estávamos nos reagrupamos e num ímpeto de coragem passamos a jogar pedras e paus nos, agora, inimigos declarados, até que eles não suportaram a pressão e fugiram em alta velocidade (o fuquinha saiu voando). Era o fim da batalha, enfim podíamos lamber as feridas e fazer o inventário. O Victor e o Hélio, do PT, como sempre, queriam fazer uma reunião de avaliação e nos brizolistas loucos para tomar um trago e relaxar. Ganhamos é óbvio, a maioria não queria mais saber de papo furado depois de tamanha presepada.
Logo em seguida o grupo estava reposto e reunido para partir, mas ainda faltava um, o companheiro Joaquim Piedade. O vileiro mais valente, pois segundo alguns morava na "boca mais 'encardida"da vila Cecília. O único informe é que o tinham-no visto numa correria desenfreada e desaparecendo numa rua escura, ao lado de uma oficina mecânica. Começamos, então, a chamá-lo pelo nome e o desgarrado apareceu de repente, todo sujo de graxa preta e arrastando um enorme cano de descarga. Estava, agora todo cheio de coragem e pronto pra briga. Falava alto e grosso:
-¨cadê os caras?¨
As nossas atividades naquele dia estavam encerradas e hoje compreendo bem o porquê de durante um bom tempo não me deixarem mais participar das pichações.

1988

Um comentário:

Jim Alves disse...

Oigale que foi tu quem gritou!
Mas bah, foi uma das correrias mais engraçadas da gente!
O desfecho foi acompanhado por mim e pelo Redinha, no dia seguinte, quando um dos sujeitos do Collor foi reclamar no programa do Zambbiazi, na Rádio Farroupilha, dizendo que havia sido atacado pelos militantes do ônibus, com o braço enfaixado da porretada que levou. Tudo fita.
abração pra ti, meu camarada. Continua contando as aventuras aí ;-)