27 de jan. de 2009

Algo sobre o destino

Do Que Me Livrei!

Quem nunca passou por uma desilusão amorosa na adolescência que atire a primeira pedra. Paixão daquelas em que estamos perdidamente apaixonados, desejando ardentemente que a pessoa amada fique ao nosso lado e que corresponda ao nosso amor, todavia o desprezo é a única e amarga resposta que recebemos? Pois é, parece que faz parte do nosso complexo aprendizado como seres humanos passarmos por situações de sofrimento emocional para aprendermos a trabalhar com as frustrações da vida e, fortalecidos por estas experiências, aprendermos a enfrentar novas situações semelhantes com mais desenvoltura e segurança.
Certo dia estava conversando com um amigo enquanto caminhávamos despreocupadamente pelas ruas da velha Viamão, porém o entretimento do assunto que nos absorvia quase deixou passar despercebido a presença de uma morena super-gorda que passava na outra calçada, caminhando com sofreguidão, pois estava muito calor, e trombando as pessoas desatenciosas que cruzavam o seu caminho. O meu amigo parou bruscamente e ficou observando a estufada donzela e diante da minha indagação se tinha perdido a atração por mulheres magras, esguias, elegantes, o danado estufou o peito, e, olhando-me de viés, com um indescritível sentimento de prazer que lhe brotava aos olhos (sutil sarcasmo), quase cochichando me confidenciou: “Do que que eu me livrei!”. E suspirou aliviado, enfim.
Após o susto, o amigo revelou-me de que a gorducha moçoila que lhe chamara a atenção já havia sido comparada a uma deusa grega por sua inigualável beleza! Era, no passado uma magérrima e esguia gazela que morava na sua rua, e que devido aos tão sensuais e lascívios dotes havia flechado em cheio seu pobre e amolecido coração. Tal foi a rejeição da avassaladora paixão pela gatísssima vizinha logo que se transformou numa louca obscessão. Largou a escola, o trabalho e não ia mais ao campinho de futebol bater uma bolinha com os amigos, e festas somente se ele soubesse que ela estaria lá, mesmo que isto lhe custasse o inevitável desprezo com que o pobre diabo era tratado pela dona absoluta de seu coração.
Sofrera, assim, como um cão sarnento, sem dono, vagando sem rumo pelas ruas infinitas que surgiam em sua vida durante longos e inesquecíveis anos. Até debaixo de chuva o infeliz zumbi trilhava padecendo de desprezo e indiferença quando a belíssima gata lhe esnobava. “Ela zombava de tudo que eu falava e quanto mais eu tentava conquistá-la, mais ela debochava da minha cara!”. Revelou-me, constrangido, com os olhos marejados da lembrança de tamanho sofrimento do amor não correspondido que havia penado. Mas agora que o tempo havia inflando as velas da fortuna, o meu amigo respirava aliviado pelo fim do seu drama, misturado com o prazer daquele surpreendente desfecho.
Fiquei pensando sobre aquela situação e refleti sobre quantas vezes na vida imploramos a Deus por algo que desejamos ter e só nos desiludimos. Parece que as vezes a expectativa é proporcional a frustração, e a resposta de Deus é um não tão rotundo que não escutamos por não querer escutar, ou aceitar passivamente, mas com o passar dos anos a espessa névoa da ilusão se dissipa em frente aos olhos e então enxergamos com clareza os erros que cometemos.
O futuro pode nos reservar tanto aquela pessoa desejada, como alguém com falha de caráter, com doenças mentais graves, um traste cachaceiro, ou uma puta, não interessa agora o resultado do “oba-oba” e sim o fato de que somente algo muito forte e previdente pode nos livrar com antecedência de um destino tenebroso. Talvez seja sorte, ou talvez um anjo-da-guarda, não sei ao certo, mas o santo Alívio sempre está presente quando pensamos ou dizemos “do que eu me livrei!”.

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