Vizinhos do Barulho
Meus vizinhos se desentenderam seriamente, e tal foi à desavença que a vida dos dois se transformou num verdadeiro inferno. Nenhum deles soube como a coisa começou, mas o que se sabe hoje em dia é que ambos detestavam a algazarra da criançada, o dia todo. Era o ataque de um lado e logo vinha a represália do outro. Passavam o tempo todo pensando uma forma de prejudicar um ao outro, tanto assim agiram que a polícia não agüentava mais tanta queixa e o delegado do distrito enfastiado das fofocas, um certo dia deu um basta aos dois:
- Ou vocês param de uma vez, ou prendo os dois e jogo a chave fora! Esbravejou, com o dedo em riste.
Os dois mal saíram da delegacia e já se entregaram aos xingamentos e ameaças:
- A tua hora vai chegar, muquirana! Dizia um entre os dentes.
- Antes de tu me almoçá eu te janto, seu merda! Resmungava o outro vermelho de ódio.
Na mesma noite um deles jogou bolinhas de guisado com veneno para os cachorros do outro. Pela manhã a cachorrada gemia esparramada pelos fundos do pátio, numa agonia de morte. Nada pôde ser feito.
O outro nem bem havia enterrado seus melhores amigos, e mais ainda de seus filhos, e se encanzinou perdidamente na construção de uma armação de paus encostando-se à cerca que divisa os dois terrenos. Estava construindo um chiqueiro de porcos que segundo ele próprio era para criar macaus que são mais gritões e fedorentos. Como era verão de dias escaldantes e noites abafadas
Já dá para imaginar o estrago. Nas noites seguintes já era quase impossível dormir com os grunhidos da piara, e durante o dia a catinga era insuportável.
O vizinho incomodado, depois de uma semana de lamentos, finalmente resolveu reagir, apesar das advertências do “Dotor delegado”. Elaborou um plano tenebroso para acabar com aquela fuzarca, e com o inimigo, obviamente.
Caçou uma cobra jararaca no mato e a guardou numa caixinha de sapatos, juntamente com um sapo cururu, para o caso de bater a fome na loca. Agora era só esperar o momento certo.
Numa noite, não muito distante, desabou um enorme temporal, com raios e trovoadas de dar medo ao mais intrépido cachaceiro de rua. O nosso amigo então, ávido por vingança, saltou da cama lá pela meia noite, vestiu uma japona preta e partiu ansioso para dar cabo a sua sombria empreitada. Chegando em frente à casa do desafeto pulou a cerca e aproximou-se pé-ante-pé da caixa de luz, abriu a portinha, desligou o disjuntor e, rapidamente, após dar uma chacoalhada na caixinha, para deixar a bicha bem braba, pensou, a jogou no contador e tapou bem depressa. Em seguida pulou a cerca e correu para sua casa e ficou espiando, rindo-se, satisfeito. O vizinho incauto abriu a porta e se pôs a reclamar da companhia elétrica, do governo e todas essas coisas que todo mundo faz, mas ao olhar para a casa ao lado, a do inimigo, percebeu que não podia ser falta geral, pois a lâmpada da área estava acesa. ¨o disjuntor deve ter desligado com um raio¨, concluiu. Passou a mão no guarda-chuva e correu em direção a caixa de luz, abriu a portinha, ligou a chave e correu de volta, no meio da chuvarada.
Com aquele desfecho inesperado e para o espanto do tinhoso, a desgraça prevista tinha ido por água-abaixo. A luz voltara ao normal e o adversário escapara ileso. ¨Mas não pode sê¨. Resmungou o que espiava. ¨Talvez a cobra...¨
- Nega veia! Gritou para a patroa que acabara de acordar.
- O que é, nego?
- Tu mexeu numa caxinha de...?
Antes que terminasse, a mulher interrompeu, sonolenta.
- Aquela que tinha um sapão, assim? Mostrando com as mãos.
- Puta que me pariu! Esbravejou, perplexo. – a...bicha escapuliu... aqui em...casaaaaaaa!!! E num salto só, caiu branco em cima da cama. Nem
É preciso comentar o susto da patroa, né?
Meus amigos, eu que moro na frente da casa dos dois nunca tinha visto tanta maldade, tanto ódio, tanta iniqüidade e trapaças. Acho que quem quer ser respeitado pelo próximo deveria em primeiro lugar dar o bom exemplo. Eu, de minha parte, juro que sou o melhor dos vizinhos, tanto sou que sempre cultivei o hábito de presentear a filharada da vizinhança com apitos, cornetas, tambores e bombinhas. Pois, é!
Paulo Saraiva - 1995
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