29 de jan. de 2009

O Poder de "Poder"!

Migalha de poder

Moacyr Scliar

No Rio, costumo dar uma caminhada matinal pelos jardins do Palácio do Catete, um lugar belíssimo e histórico - no Palácio moraram vários presidentes, inclusive Getúlio Vargas. Os jardins são cercados por uma alta grade. Só se pode entrar por um dos dois portões, e foi o que eu fiz, há alguns dias. O guarda que estava lá não me deixou passar: só depois das 8h, ele disse. Olhei o relógio: passavam cinco minutos das 8h, e foi o que eu disse a ele. Nesse momento, apareceu um homem que também queria entrar e que disse a mesma coisa: estava na hora. Mas o guarda não cederia tão facilmente. Disse que precisaria avisar seu superior. Ao que o homem que estava a meu lado reclamou: mas, afinal, o que regulava a entrada era o horário ou o tal superior? Não houve jeito. Só entramos depois que o guardião do paraíso falou com o superior (Deus?).

O guarda dos jardins do Catete e seu superior detêm poder. Uma migalha de poder, certamente, mas poder. E, como é muito comum entre pessoas que detêm uma migalha de poder, ele faria render esta migalha o máximo possível, ignorando inclusive o regulamento. O guarda e o superior mostraram-nos que quem mandava ali não era a lógica ou o relógio, eram eles. Agora, perguntem-se: quantas vezes vocês já passaram por situações assim, numa loja, num banco, numa repartição pública.

Poder não é uma coisa ruim; ruim é não poder fazer as coisas. Precisamos de pessoas que possam fazer aquilo que é necessário para outras pessoas, para a sociedade. O problema está no uso que certas pessoas fazem do poder, sobretudo de sua migalha de poder. Transformam-na numa compensação para toda espécie de frustrações. O guarda dos jardins do Catete talvez não ganhe muito, talvez tenha problemas com a família, com rivais, com seja lá quem for. Resultado: descarrega nos caras que aparecem no portão do território que ele supostamente controla. Isso no Rio, em São Paulo, em Porto Alegre, em qualquer lugar.

O que fazem as pessoas? Revoltam-se, como o caso do homem que discutiu com o guarda. Ou, quando não têm o regulamento a seu lado, recorrem ao jeitinho que é o antídoto brasileiro para a rigidez da burocracia. Mas nada disso serve. Nada disso é democrático. A verdade é que herdamos uma carga de autoritarismo vinda dos tempos da colônia. Mas estamos aprendendo a mudar. E um dia entraremos nos jardins do Palácio do Catete às oito horas em ponto

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